CRIAÇÃO DE LIVROS INFANTIS AUTORAIS: TECNOLOGIA, REPERTÓRIO CULTURAL E CIDADANIA INTELECTUAL
Descrição Geral
Este relato de experiência apresenta um projeto educativo desenvolvido em uma escola municipal de Campina Grande/PB, no período de julho a agosto de 2025, com alunos do 1º e 2º anos iniciais do Ensino Fundamental. O projeto consistiu na criação de livros infantis autorais, articulando alfabetização, letramento digital, repertório cultural e noções iniciais de cidadania intelectual.
A proposta utilizou a metodologia do Projeto SuperAutor para orientar a escrita e a ilustração produzidas pelas próprias crianças, em formato 100% autoral, combinando atividades desplugadas (papel, lápis, desenho) com o uso de Chromebooks, plataforma SuperAutor e ambiente de Inteligência Artificial Generativa (IA) para ilustração. O trabalho foi organizado em oficinas semanais no contraturno, como ação do Programa “Escola em Tempo Integral”, ao longo de aproximadamente oito semanas, o que permitiu acompanhar o processo de autoria do esboço inicial à versão final dos livros.
Durante o percurso foram introduzidas noções básicas de direitos autorais, destacando-se que as crianças eram as autoras e titulares intelectuais de seus textos e imagens, em linguagem acessível à faixa etária. Observou-se o fortalecimento do protagonismo infantil, o aumento do engajamento com as tecnologias digitais e a ampliação do repertório cultural, à medida que os estudantes produziram narrativas vinculadas ao seu contexto de vida.
Objetivo Geral
O objetivo geral foi promover a produção literária autoral e o desenvolvimento do letramento digital dos alunos, por meio da elaboração de livros infantis coletivos e individuais. A intenção era que as crianças vivenciassem a experiência completa de “ser autor”, articulando linguagem escrita, imagem e uso de recursos digitais.
p. 61Objetivos Específicos
- Desenvolver habilidades de leitura e escrita autoral, com foco na clareza,
- Fortalecer o protagonismo infantil e o sentimento de pertencimento ao grupo, a
- Estimular o uso crítico e criativo de tecnologias digitais (Chromebooks,
- Introduzir noções básicas de direitos autorais e autoria, como componente da
- Ampliar o repertório cultural dos alunos por meio de vivências literárias ligadas
coerência e organização textual;
partir de produções coletivas e individuais;
plataformas educacionais e IA generativa) em contexto pedagógico;
cidadania intelectual das crianças;
ao cotidiano, às crenças, à família, à escola e ao lazer.
Habilidades Trabalhadas
O projeto foi planejado em alinhamento à Base Nacional Comum Curricular (BNCC), contemplando principalmente a área de Língua Portuguesa, Arte e as competências gerais relacionadas à cultura digital e responsabilidade e cidadania.
Nessa direção, a inserção de tecnologias no ensino de Língua Portuguesa precisa articular usos significativos da linguagem às orientações da BNCC, evitando práticas meramente instrumentais (Regner et al., 2022).
- EF01LP05 - planejar e produzir, com a mediação do professor, textos escritos
- EF02LP15 - produzir e revisar, com apoio, textos narrativos curtos,
- EF15AR02 - experimentar diferentes materiais e suportes na criação de
- EF15AR04 - elaborar composições que articulem formas, cores e espaço,
- Competência Geral 1 - (Conhecimento): articular saberes da alfabetização e
- Competência Geral 4 - (Comunicação): favorecer a expressão oral, escrita e
- Competência Geral 5 - (Cultura digital): integrar o uso de Chromebooks,
simples (como pequenos relatos e bilhetes), adequados à situação
comunicativa.
considerando começo, meio e fim, bem como a sequência lógica dos fatos.
imagens, explorando desenho e pintura.
relacionando texto e imagem nas páginas dos livros.
da cultura digital.
visual das crianças.
plataforma de autoria e IA generativa de forma pedagógica.
As habilidades e códigos aqui citados servem como referência para que outras redes possam adaptar a experiência às suas matrizes curriculares locais, mantendo a centralidade na autoria infantil e na integração com tecnologias digitais.
Materiais utilizados
Foram utilizados Chromebooks para redação e edição colaborativa de textos digitais e acesso à Plataforma SuperAutor (ambiente digital para criação e formatação das páginas dos livros). Nas ações desplugadas, folhas de papel A4, lápis grafite e lápis de cor, para esboço inicial dos desenhos e atividades manuais. Na finalização, scanner e câmeras de dispositivos móveis, para digitalização dos desenhos produzidos em papel, e ambiente de IA generativa.
Metodologia
As atividades foram organizadas em oficinas semanais. Cada oficina seguiu uma rotina didática composta por acolhida, retomada da etapa anterior, desenvolvimento de tarefas de autoria (em papel ou no Chromebook) e socialização parcial dos produtos.
No início do projeto, explicou-se às turmas, com exemplos concretos, o que significa “ser autor” de um livro: alguém que cria a história, escreve o texto, faz os desenhos e pode mostrar sua obra para outras pessoas. Utilizaram-se livros infantis impressos já conhecidos pelos estudantes para comparação, destacando capa, título, páginas, ilustrações e autoria, e, em seguida, apresentou-se a proposta de que cada turma produziria seu próprio livro.
As instruções eram sempre mediadas oralmente, com apoio de registros visuais no quadro (esquemas simples, listas de ideias, bancos de palavras) e, quando necessário, reformuladas em linguagem ainda mais simples para crianças em processo inicial de alfabetização. No momento de uso dos Chromebooks, os professores modelavam o passo a passo projetando a tela (acesso à plataforma, escolha de caixa de texto, inserção de imagem) e, depois, circulavam entre as mesas para apoiar individualmente ou em pequenos grupos, garantindo que todos conseguissem digitar, localizar letras no teclado e usar o touchpad.
A IA generativa foi utilizada para ajuste de cor, detalhes e acabamento digitalmente nas ilustrações. A partir dos esboços dos alunos, foram apresentados exemplos de prompts curtos, construídos coletivamente (“colorir o céu de azul claro e as árvores de verde escuro”, “deixar a casa mais detalhada com janelas e porta amarela”), reforçando a
p. 63importância de usar frases respeitosas, sem ofensas ou pedidos inadequados. As crianças eram convidadas a falar em voz alta o que queriam alterar no desenho, e o professor ajudava a transformar esse desejo em uma instrução textual simples para o sistema.
Na turma do 1º ano, as crianças produziram coletivamente um livro intitulado “Sonhos de Criança”. O trabalho desenvolveu-se em quatro grandes etapas: levantamento de repertório, escrita coletiva, ilustração em grupos e digitação/diagramação na plataforma SuperAutor.
Primeiro, em roda de conversa, os estudantes compartilharam sonhos relacionados a família, futuro, profissões, brinquedos, viagens e outras experiências significativas, enquanto o professor registrava palavras-chave e frases curtas no quadro. Em seguida, com mediação docente, esses registros foram organizados em pequenos textos coletivos,

cada um correspondendo a uma página do futuro livro (Figura 1).
Na etapa de ilustração, os alunos foram divididos em grupos, e cada grupo ficou responsável por transformar um dos sonhos em imagem, desenhando em papel com lápis de cor e canetinhas. Posteriormente, as crianças passaram para o Chromebook para digitar, com apoio, a frase de sua página e inserir o desenho digitalizado na plataforma SuperAutor, acompanhando em tempo real o resultado e fazendo ajustes de posição e tamanho da imagem.
p. 64Na turma do 2º ano, a proposta partiu de um poema coletivo, “Poesia da Criançada”, organizado em seis estrofes com temas como Deus, família, amigos, escola, brincadeiras e lazer. Esse poema foi construído em aula, em processo de escrita colaborativa: as crianças sugeriram versos oralmente, o professor registrava no quadro, e o grupo negociava a melhor forma de organizar rimas, ritmo e sequência temática.
Após a finalização do poema, cada criança escolheu ou recebeu um verso/estrofe para ilustrar, realizando primeiro um desenho livre em papel, de acordo com sua compreensão daquele trecho. Esses desenhos foram então digitalizados (Figura 2), e, em oficinas específicas, cada aluno pôde experimentar um ambiente de IA generativa para refinar visualmente sua ilustração, guiado por exemplos e comandos construídos em conjunto com o professor.

Os resultados foram incorporados à plataforma3 SuperAutor: cada página do livro reuniu o trecho do poema, digitado pela criança (com apoio na revisão ortográfica), e a respectiva ilustração, seja em sua versão original digitalizada, seja em sua versão refinada pela IA generativa. Em todas as etapas, reforçou-se que a ferramenta tecnológica atuava como recurso de acabamento e não como substituta da criação feita pela criança.
3 Link de acesso aos materiais: https://www.felixaraujomunicipal.com/p/superautores.html.
p. 65IA generativa no projeto
Complementando as etapas descritas na Metodologia, a IA generativa foi apresentada às crianças como uma tecnologia capaz de criar ou aprimorar imagens a partir de descrições em linguagem natural, construídas pelo próprio usuário, sempre com base em ideias e esboços previamente definidos. Conceitualmente, explicou-se que se tratava de um sistema treinado com muitos exemplos de imagens, que aprende padrões visuais e consegue gerar novas versões a partir de comandos (prompts), sem “pensar” ou “sentir”, sendo apenas uma ferramenta a serviço da criatividade humana.
Operacionalmente, a IA foi utilizada somente com os grupos do 2º ano, em etapa posterior ao desenho manual conforme mostra a figura 3. Primeiro, cada criança elaborou à mão, a ilustração relativa a um verso do poema coletivo. Em seguida, esse desenho foi digitalizado e usado como base visual para o refinamento pela IA, por meio de comandos curtos que indicavam cores, cenários ou detalhes adicionais desejados.

Na Figura 4 podemos observar um resultado onde as crianças foram orientadas a não pedir à IA que mudasse a ideia central da imagem, mas apenas que “ajudasse” a

deixar o desenho mais colorido, nítido ou detalhado, reforçando a noção de que a autoria da composição era delas.
Durante as oficinas, discutiram-se de forma breve questões éticas ligadas ao uso de IA, como a importância de não atribuir à ferramenta o lugar de “autor” das obras, os cuidados com o uso de imagens de pessoas sem autorização e a necessidade de pensar criticamente sobre os resultados apresentados pelo sistema. Essa abordagem buscou introduzir, em linguagem acessível, noções iniciais de cidadania digital articuladas à cidadania intelectual.
p. 67Avaliação
A avaliação do projeto foi contínua e formativa, acompanhando o processo de aprendizagem das crianças ao longo de todas as oficinas, do primeiro esboço ao livro finalizado. Foram considerados critérios como participação, interesse, evolução da escrita (coerência, segmentação de palavras, uso de maiúsculas e pontuação) e desenvolvimento das ilustrações (relação texto-imagem, detalhamento, uso de cores), sempre em perspectiva processual.
Momentos de autoavaliação e heteroavaliação foram promovidos por meio de rodas de conversa, em que os estudantes comentavam o que haviam aprendido sobre autoria, tecnologia e trabalho em grupo, bem como as partes do livro de que mais gostavam e aquelas em que sentiam ter superado uma dificuldade. Esses momentos também permitiram aos professores recolher indícios de avanço em habilidades socioemocionais, como colaboração, escuta e respeito às ideias dos colegas.
Como parte da avaliação, observou-se a crescente autonomia das crianças no uso das ferramentas digitais: no decorrer das oficinas, a necessidade de intervenção direta para tarefas como abrir a plataforma, localizar botões básicos ou salvar o trabalho foi diminuindo. A reflexão sobre o uso da IA generativa também foi incluída nos instrumentos avaliativos, por meio de perguntas simples do tipo “O que a IA fez?” e “O que fui eu que fiz?”, para reforçar a compreensão sobre autoria.
Conclusão
O projeto evidenciou que a mediação intencional de tecnologias digitais pode ampliar significativamente as possibilidades de autoria infantil, mesmo em contextos de alfabetização inicial. Crianças que, em geral, ocupam o lugar de leitoras ou consumidoras de livros passaram a experimentar-se como autoras de narrativas e ilustrações, produzindo obras coletivas e individuais que dialogam com seu cotidiano e repertório cultural.
Entre as principais contribuições observadas, destacam-se o fortalecimento do protagonismo infantil, a ampliação do repertório cultural e a introdução de noções básicas de direitos autorais e cidadania intelectual em linguagem acessível às crianças. Notou-se, ainda, o desenvolvimento de habilidades socioemocionais e de letramento digital, incluindo o uso mais autônomo de Chromebooks, plataformas de autoria e, de forma mediada, de IA generativa.
p. 68A experiência confirma que crianças em fase de alfabetização têm potencial para atuar como autoras literárias quando apoiadas por metodologias que valorizam sua voz, seus desenhos e suas histórias, e quando contam com recursos tecnológicos pedagogicamente integrados. O uso de IA generativa, em particular, mostrou-se um elemento motivador e contemporâneo, capaz de enriquecer a etapa de ilustração por meio do uso ético da linguagem computacional (prompts), sem deslocar a centralidade da autoria que permanece com a criança.
Por fim, conclui-se que propostas dessa natureza contribuem para aprendizagens significativas ao integrar alfabetização, letramento digital, repertório cultural e cidadania intelectual, oferecendo caminhos para que outras redes de ensino adaptem e repliquem a experiência em seus contextos.
Referências
BRASIL. Base Nacional Comum Curricular. Brasília, DF: Ministério da Educação, 2018. Disponível em: http://basenacionalcomum.mec.gov.br/a-base. Acesso em: 10 jan. 2026.
LIMA, João Ademar de Andrade. Criação de Livros Infantis Autorais. Campina Grande: Wiki Propriedade Intelectual, 13 out. 2025. Disponível em: https://propriedadeintelectual.wiki.br/index.php/Criação_de_Livros_Infantis_Autorais. Acesso em: 10 jan. 2026.
REGNER, Ana Paula et al. Ensino de língua portuguesa e tecnologias: aproximações à BNCC. Acta Scientiarum. Language and Culture, Maringá, v. 44, n. 2, e61745, 2022. Disponível em: https://doi.org/10.4025/actascilangcult.v44i2.61745. Acesso em: 24 fev. 2026.
SUPERAUTOR. Muito além de uma atividade: entenda o propósito do Projeto SuperAutor. Rio de Janeiro: SuperAutor, 23 jun. 2021. Disponível em: https://www.superautor.com.br/. Acesso em: 10 jan. 2026.